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217 Mil Usuários se Autoexcluem de Sites de Apostas no Brasil

Pessoa adulta vista de costas segura um smartphone com a mensagem “Autoexclusão Ativada” e “Conta Desativada” na tela. Ao fundo, gráficos financeiros e ícones de dados em tons azulados, com o texto “217 mil usuários decidiram sair”



Esse número — relevante por si só — vai além das estatísticas e nos convida a refletir sobre temas amplos: mercado regulado de apostas, saúde mental, proteção ao consumidor e as responsabilidades de um setor que movimenta bilhões.


O que é a Plataforma Centralizada de Autoexclusão?


Antes de mais nada, vale esclarecer do que estamos falando.


A Plataforma Centralizada de Autoexclusão é um sistema disponibilizado pelo Governo Federal que permite a qualquer cidadão brasileiro, por meio de cadastro no portal gov.br, solicitar o bloqueio simultâneo de todas as suas contas em sites de apostas autorizados. Esse bloqueio pode ser definido por um prazo determinado (de um a 12 meses) ou por tempo indeterminado — sem possibilidade de reversão antes do término escolhido.


Além disso, o sistema garante que:


  • O CPF do solicitante fique indisponível para novos cadastros em sites de apostas.

  • O usuário deixe de receber publicidade direcionada de plataformas de apostas.

  • Informações sobre saúde mental e pontos de apoio do SUS sejam disponibilizadas como referência para quem quiser ajuda adicional.


Trata-se, portanto, de uma ferramenta coletiva de redução de danos, que integra tecnologia, proteção ao consumidor e responsabilidade social.


Os números: 217 mil pedidos em 40 dias


Segundo dados oficiais, em apenas quarenta dias, mais de 217 mil brasileiros formalizaram pedidos de autoexclusão na nova plataforma. Grande parte desses registros não representa apenas um número estatístico — representam pessoas que sentiram que precisavam de uma intervenção concreta em sua relação com jogos de aposta.


O levantamento revela:


  • 37% dos pedidos citaram como motivo a “perda de controle sobre o jogo” — um sinal claro de problemas relacionados à saúde mental e ao vício em apostas.

  • 25% indicaram que queriam impedir o uso de seus dados pessoais pelas plataformas.

  • 73% dos pedidos foram feitos para autoexclusão por tempo indeterminado, e 19% quiseram o bloqueio por um ano.


Esses números não apenas dimensionam a utilização da ferramenta, mas também sinalizam questões sociais e comportamentais que não deveriam ser ignoradas.


Saúde Mental e Apostas: por que isso importa?


Quando mais de um terço dos pedidos de autoexclusão cita “perda de controle” como motivo, temos um alerta claro: jogo problemático não é apenas um problema econômico — é muito mais um problema de saúde pública.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece o transtorno do jogo, que envolve:


  • Impulsividade

  • Perda de controle sobre o comportamento de apostas

  • Prejuízo social e financeiro

  • Sintomas similares ao vício em substâncias


Ferramentas como a plataforma de autoexclusão contribuem para oferecer opções de redução de danos e suporte, especialmente quando combinadas com políticas públicas que incentivem prevenção, intervenção e tratamento.


Contexto: um mercado bilionário em expansão


Precisamos compreender esse fenômeno em um contexto mais amplo.


Em 2025, o mercado de apostas no Brasil foi regulado e cresceu significativamente. Os números fazem com que esse setor seja um dos mercados mais dinâmicos — e também mais desafiadores — da economia digital no país.


Dados oficiais mostram:


  • 25,2 milhões de brasileiros apostaram em plataformas autorizadas no ano passado.

  • O setor movimentou R$ 37 bilhões em receita bruta (valor entre apostas e prêmios).

  • Isso gerou cerca de R$ 8,8 bilhões em tributos arrecadados para o governo federal.

  • Cerca de 10 mil empregos diretos e 5,5 mil indiretos foram criados no período.


Esses números mostram que se trata de um setor robusto, que já faz parte da economia formal e tem impacto direto na arrecadação e no mercado de trabalho.


Regulação e fiscalização: desafios e oportunidades


A criação da plataforma de autoexclusão está inserida em um processo regulatório mais amplo. A Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), vinculada ao Ministério da Fazenda, tem se concentrado nos:


1. Desenvolvimento de normas e fiscalização


Desde a sua criação, a SPA vem expandindo sua atuação, estruturando o mercado e promovendo a fiscalização de apostas autorizadas e ilegais. Em 2025, foram registrados mais de 25 mil sites ilegais bloqueados.


Além disso, processos administrativos foram instaurados para aplicar penalidades a operadores que não cumprem as normas.


2. Combate à publicidade ilegal


Em parceria com o Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária (Conar), a SPA identificou e removeu perfis de influenciadores digitais que publicavam propaganda irregular de sites de apostas nas redes sociais.


3. Integração com políticas públicas de saúde


A plataforma está alinhada a iniciativas que tratam o jogo problemático como questão de saúde pública, trazendo informações e encaminhamentos que podem ser usados por serviços do SUS.


Esses esforços refletem um foco maior em parceria institucional, integração e governança — todas essenciais para mitigar riscos sociais sem impedir um mercado legítimo de operar.


O equilíbrio entre liberdade de escolha e responsabilidade


A plataforma repousa em um princípio simples: liberdade de escolha do cidadão. Qualquer pessoa pode optar por excluir voluntariamente seu acesso a apostas digitais.

Mas liberdade sem mecanismos protetivos pode ser frágil.


Nesse sentido, a ferramenta não apenas dá poder ao usuário de limitar seu acesso, mas também cria uma barreira que impede que esse mesmo usuário seja alvo constante de publicidade direcionada e convites de retorno. Isso é uma forma de cuidar da autonomia do cidadão de forma responsável.


Lições para empresas e profissionais


Quatro lições importantes emergem desse episódio:


1. Mercados emergentes exigem ferramentas de proteção


Quando um setor cresce rapidamente — como o de apostas — há grande potencial de impacto social. Ferramentas de proteção ao consumidor devem caminhar junto ao crescimento econômico.


2. Dados confiáveis são base para políticas públicas


Mais de 217 mil pedidos num período curto permitiram à SPA entender demandas reais e elaborar estratégias baseadas em evidências.


3. Regulação integrada amplia segurança jurídica


Um mercado regulado, com regras claras e mecanismos de fiscalização e proteção, é mais confiável para empresas, consumidores e investidores.


4. Saúde mental não é secundária em economia digital


Problemas como dependência comportamental e uso compulsivo devem ser considerados em qualquer discussão sobre modelos de negócio que lidam com risco e recompensa.


Conclusão: mais que números, pessoas


Os 217 mil pedidos de autoexclusão não são apenas uma estatística: são pessoas — cidadãos que sentiram a necessidade de interromper uma relação que estava se tornando prejudicial. São sinais claros de que o Brasil está construindo ferramentas e arranjos institucionais capazes de equilibrar:


  • crescimento econômico,

  • inovação digital e

  • proteção aos indivíduos mais vulneráveis.


Quando o Estado, setor privado e a sociedade civil trabalham em conjunto — com dados, responsabilidade e foco humano — criamos um ambiente mais sustentável para todos.

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