Penas maiores reduzem crimes no Brasil?
- João Falanga
- 4 de mai.
- 4 min de leitura
O presidente sancionou uma nova lei que aumenta as penas para crimes como furto, roubo e estelionato. A medida surge em um momento de pressão social crescente diante da sensação de insegurança no país e da escalada de crimes, especialmente os ligados a celulares e fraudes digitais.
A pergunta central, no entanto, é simples e incômoda: aumentar penas funciona de fato para reduzir a criminalidade?
Este artigo parte da notícia recente para discutir não apenas o que mudou na lei, mas principalmente se essa estratégia tem chance real de gerar impacto no Brasil.
O que muda com a nova lei
A nova legislação endurece o Código Penal em pontos específicos. Entre as principais mudanças:
Roubo de celular passa a ter pena de até 10 anos
Estelionato e fraudes digitais podem chegar a 8 anos
Latrocínio teve a pena mínima elevada
Punição para uso de “contas laranja” também foi ampliada
O foco é claro: crimes patrimoniais e golpes, que hoje são os mais comuns no cotidiano do brasileiro.
Esse movimento não é isolado. O projeto já vinha tramitando desde 2023 e foi aprovado no Congresso com apoio amplo, justamente por responder a uma demanda social urgente por mais segurança .
O contexto: crime em alta
O endurecimento das penas acontece em um cenário preocupante.
Só para dar um exemplo, o Brasil registrou cerca de 920 mil celulares roubados em 2025, segundo dados citados pelo Ministério da Justiça . Isso sem contar os casos de estelionato, que cresceram rapidamente com a digitalização dos golpes.
Hoje, crimes como:
golpe do PIX
fraude bancária
clonagem de WhatsApp
roubo de celular
fazem parte da rotina urbana.
Ou seja, a lei tenta reagir a um problema real. A questão é se o instrumento escolhido é o mais eficaz.
A lógica por trás do aumento de penas
A ideia de aumentar penas parte de um princípio básico: o efeito dissuasório.
Funciona assim: quanto maior o risco e a punição, menor seria o incentivo para cometer o crime.
Na teoria, faz sentido. Mas, na prática, essa lógica depende de um fator crucial:
a certeza da punição.
Se o criminoso acredita que dificilmente será pego, o tamanho da pena perde relevância.
O problema central: impunidade
No Brasil, o gargalo não está necessariamente na pena, mas na aplicação da lei.
Alguns pontos ajudam a entender isso:
Baixa taxa de resolução de crimes
Investigações lentas
Sistema judicial sobrecarregado
Dificuldade de rastrear crimes digitais
Se o risco de ser preso é baixo, aumentar a pena de 4 para 8 anos, por exemplo, muda pouco o comportamento de quem comete o crime.
É uma questão de probabilidade, não apenas de severidade.
Evidências e experiência internacional
Diversos estudos em criminologia mostram que:
A certeza da punição tem mais impacto que a severidade
Penas muito altas não reduzem necessariamente o crime
Políticas de prevenção e inteligência costumam ser mais eficazes
Países que conseguiram reduzir criminalidade, em geral, investiram em:
policiamento orientado por dados
investigação eficiente
integração entre forças de segurança
tecnologia
Não apenas em leis mais duras.
O risco do “efeito simbólico”
Há também um fator político importante.
Leis mais duras costumam ter forte apelo popular. Elas transmitem a sensação de ação imediata do Estado.
Mas isso pode gerar um efeito simbólico:
A população sente que algo foi feito
Mas a realidade prática muda pouco
Isso não significa que a lei seja inútil. Ela pode ajudar, especialmente em casos específicos. O problema é tratá-la como solução principal.
O caso dos celulares: exemplo concreto
O roubo de celulares virou um dos crimes mais comuns no país. E a nova lei tenta atacar diretamente isso.
Mas vale observar:
O celular não é roubado apenas pelo valor do aparelho.
Ele é roubado porque:
dá acesso a contas bancárias
permite golpes financeiros
facilita extorsões
Ou seja, o crime está inserido em uma cadeia mais complexa.
Sem atacar essa estrutura (receptação, fraude digital, redes organizadas), o aumento de pena atinge apenas a ponta do problema.
Estelionato: o crime que mais cresce
Outro foco da lei é o estelionato, especialmente o digital.
Esse tipo de crime cresce por três razões principais:
Baixo risco para o criminoso
Alta escala (um golpe pode atingir milhares)
Dificuldade de investigação
Nesse contexto, penas maiores podem ter impacto limitado.
O que realmente faz diferença aqui é:
rastreamento financeiro
cooperação entre bancos
tecnologia antifraude
educação digital da população
O papel do sistema prisional
Outro ponto pouco discutido é o impacto no sistema carcerário.
O Brasil já tem uma das maiores populações prisionais do mundo.
Aumentar penas pode:
ampliar a superlotação
elevar custos públicos
dificultar a ressocialização
Sem políticas complementares, o risco é aumentar o problema em vez de resolvê-lo.
O que realmente pode funcionar
Se a meta é reduzir criminalidade, algumas medidas tendem a ser mais eficazes:
1. Aumentar a chance de punição
Mais investigações resolvidas têm impacto direto.
2. Inteligência policial
Uso de dados e tecnologia para identificar padrões.
3. Combate ao crime organizado
Atacar redes, não apenas indivíduos.
4. Integração institucional
Polícia, justiça e sistema financeiro trabalhando juntos.
5. Prevenção
Educação, urbanismo e políticas sociais também influenciam.
Então, a lei vai funcionar?
A resposta honesta é: parcialmente, e com limitações.
Ela pode:
aumentar a punição em casos específicos
sinalizar maior rigor do Estado
ter algum efeito dissuasório marginal
Mas dificilmente será suficiente para:
reduzir significativamente os índices de criminalidade
conter o avanço dos golpes digitais
mudar a sensação de insegurança da população
Conclusão
A nova lei sancionada é uma resposta política a um problema real e urgente. O Brasil enfrenta uma onda de crimes patrimoniais e digitais que afeta diretamente o dia a dia das pessoas.
Mas aumentar penas, sozinho, não resolve o problema.
Sem melhorar a capacidade de investigação, reduzir a impunidade e atacar as estruturas do crime, o impacto tende a ser limitado.
No fim, a discussão não deveria ser apenas sobre “punir mais”, mas sobre punir melhor e prevenir de forma mais inteligente.
Essa é a diferença entre reagir ao crime e, de fato, reduzi-lo.







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