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Atropelamento e arrastamento: que tipo de homem leva violência tão longe?

Mulher permanece em coma após ser arrastada por ex-companheiro; por que tanta brutalidade e impunidade em casos de violência contra mulheres?

Quando um carro vira arma: o caso de tamanha crueldade


Na manhã de 29 de novembro de 2025, na Marginal Tietê, na Zona Norte de São Paulo, uma mulher de 31 anos — identificada como Taynara Souza Santos — foi atropelada e arrastada por aproximadamente um quilômetro pelo seu ex-companheiro.


As consequências foram terríveis. Taynara sofreu amputação das pernas e segue internada, em coma induzido, no Hospital das Clínicas, entubada e respirando com auxílio de aparelhos.


 A família afirma que, mesmo após sedação ser reduzida, ela reagiu a estímulos — um pequeno sinal de vida entre tantos danos irreversíveis.


A polícia trata o crime como tentativa de feminicídio — uma agressão com requintes de crueldade, sem possibilidade de defesa da vítima.


Esse episódio recente deveria chocar a todos — e nos levar a questionar: o que está acontecendo com a nossa sociedade para tanta brutalidade?


A normalização da violência contra mulheres no Brasil


O caso de Taynara não é isolado. Dados recentes mostram um panorama alarmante e persistente de agressões contra mulheres no Brasil:


  • Em 2025, a capital paulista registrou o maior número de feminicídios desde 2018, segundo levantamento da Secretaria Estadual de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP). Agência Brasil+1

  • Em âmbito nacional, estimativas apontam que o país tem, em média, dez mulheres assassinadas por dia. UOL Notícias+1

  • Pesquisa recente mostrou que 21,4 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de agressão nos últimos 12 meses — 18,9% relataram violência física, e 10,7% abuso sexual. O Globo

  • Numa amostragem de 2024, parceiras ou ex-companheiros foram responsáveis por cerca de 70% dos casos de violência contra mulheres. UOL Notícias+1

  • Alarmante: mais de 70% das agressões ocorrem na presença de outras pessoas — e em 7 de cada 10 desses casos, havia crianças no ambiente. Agência Brasil+1


Apesar desses números altos, quase metade das vítimas opta por não denunciar — recorrendo a familiares ou amigos em vez de buscar apoio formal.


Outras histórias de horror: escancare a face visível da barbárie

O crime contra Taynara chama atenção por sua brutalidade extrema, mas há outros episódios recentes que confirmam o quanto a violência contra mulheres pode ser desumana — muitas vezes disfarçada de “ciúmes”, “relacionamentos”, “passionalidade”.


Por exemplo, em 2025, no estado do Rio Grande do Norte, uma mulher foi espancada com mais de 60 socos no rosto por seu namorado, dentro de um elevador. Resultado: fraturas graves, risco de morte, indiciamento por tentativa de feminicídio.


Casos como esse repetem-se em vários estados. Muitas vezes, a escalada de violência começa com agressões “leves” — insultos, humilhações, controle — e progride até o nível mais grave: mutilações, tentativas de assassinato, feminicídios.


A repetição desses casos em 2025 mostra que, longe de ocorrer por “exceção”, essas tragédias fazem parte de um padrão nacional: um padrão de brutalidade machista que busca controlar, punir, destruir a mulher, muitas vezes pelo simples fato de ela ter autonomia.


Questionar esse tipo de violência é essencial se quisermos alguma mudança real. Algumas causas parecem recorrentes:


  • O patriarcado — uma cultura histórica de desigualdade de gênero — ainda determina que o corpo da mulher é “posse” do homem. A violência é usada como ferramenta de controle, humilhação, punição.

  • A impunidade real ou percebida — mesmo com leis específicas como Lei Maria da Penha — muitos agressores não sofrem consequências proporcionais aos crimes. Isso cria um sentimento de "liberdade para destruir".

  • O silenciamento das vítimas — uma grande parte não denuncia, por medo, dependência econômica, vergonha ou descrença. Isso reforça a sensação de que o agressor pode agir sem ser incomodado.

  • A escalada da violência — muitas vezes a agressão começa sutil e evolui. Quando há normalização de insultos e humilhação, o passo para agressões físicas ou até mortais se torna mais “natural”.


Quando um homem decide usar um carro como instrumento de tortura, arrastando uma mulher por quilômetros, ele demonstra que não há limites para o que entende como poder e controle. Isso não é “um crime isolado”. É consequência de uma cultura que tolera — direta ou indiretamente — a violência contra a mulher.


Sociedade cúmplice: como muitas vezes fechamos os olhos


Se olharmos com honestidade, perceberemos que a sociedade muitas vezes age como cúmplice — não por omissão momentânea, mas por negligência sistemática.


Quando notícias como a de Taynara são manchetes, ficamos indignados por alguns dias. Depois esquecemos. Seguimos com a rotina, sem questionar os alicerces que permitem que tantos crimes de gênero aconteçam.


Quando uma agressão acontece e testemunhas presenciam, mas nada fazem — ou quando denúncias não são feitas —, o sistema se reafirma como zona de impunidade. Dados mostram que 71% das agressões são presenciadas por outras pessoas — muitas vezes crianças — e em 40% dos casos com testemunhas a vítima não recebeu ajuda.


O que a justiça e a sociedade deveriam fazer — além das leis

Leis como a Lei Maria da Penha são fundamentais. Mas não bastam. Para enfrentar a violência contra as mulheres é necessário uma mudança profunda de mentalidade. Algumas medidas urgentes:


  • Investimento em educação sobre gênero desde a infância. Ensinar respeito, empatia, igualdade. Questionar estereótipos de poder, dominação, posse.

  • Incentivo à denúncia e apoio real às vítimas — com rede de acolhimento ampla, proteção efetiva, cuidado psicológico, suporte social e econômico.

  • Responsabilização rigorosa de agressores, sem criminalização seletiva: não apenas dos casos extremos, mas desde os primeiros sinais de violência.

  • Mobilização social permanente: campanhas, debates, visibilidade aos casos — para evitar que se repitam em silêncio.


Mais do que reagir às tragédias, é preciso preveni-las.


Até quando vamos permitir violência assim?


O caso de Taynara expõe de forma grotesca o que muitas mulheres vivem todos os dias: o medo de um ex, de um parceiro, de alguém que julga ter o direito sobre seu corpo e sua liberdade. Quando o carro vira arma, quando a brutalidade é tamanha, percebemos que a violência contra a mulher não é acidente, não é exceção — é consequência de uma cultura perversa, de um sistema que reproduz dor, horror e impunidade.


Enquanto a sociedade seguir acomodada, fechando os olhos, ignorando os gritos silenciosos das vítimas — não importa em que nível de horror —, estaremos permitindo que novas vidas sejam destruídas. O caso de Taynara deveria ser um ponto de inflexão: não apenas de tristeza, mas de revolta.


NOTA: A notícia acima aborda violência extrema contra mulheres e pode ser sensível para algumas pessoas. Se você ou alguém que você conhece está em situação de risco, denuncie pelo 180. Em emergências, acione a Polícia Militar pelo 190.

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