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Adiamento — Fernando Pessoa


Foto em preto em branco do poeta Fernando Pessoa em primeiro plano, andando em uma calçada, com outras pessoas ao fundo.
O poeta Fernando Pessoa


Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã… Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não… Não, hoje nada; hoje não posso. A persistência confusa da minha subjectividade objectiva, O sono da minha vida real, intercalado, O cansaço antecipado e infinito, Um cansaço de mundos para apanhar um eléctrico… Esta espécie de alma…

Só depois de amanhã…

Hoje quero preparar-me, Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte… Ele é que é decisivo. Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos… Amanhã é o dia dos planos. Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo; Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã… Tenho vontade de chorar, Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro… Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo. Só depois de amanhã… Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana. Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância… Depois de amanhã serei outro, A minha vida triunfar-se-á, Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático. Serão convocadas por um edital… Mas por um edital de amanhã… Hoje quero dormir, redigirei amanhã… Por hoje qual é o espectáculo que me repetiria a infância? Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã, Que depois de amanhã é que está bem o espectáculo… Antes, não… Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser. Só depois de amanhã… Tenho sono como o frio de um cão vadio. Tenho muito sono. Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã… Sim, talvez só depois de amanhã… O porvir… Sim, o porvir… 14-4-1928 ╰─► Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). ╰─► 1ª publ. in Solução Editora, nº1. Lisboa 1929.


Fonte: href.li


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